Amor, vínculos, desejo e luto

Os três tempos do luto: quando o sujeito não sofre do mesmo jeito o tempo todo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:26

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🧐📄 Textão do Dia *Os três tempos do luto: quando o sujeito não sofre do mesmo jeito o tempo todo* Há quem imagine o luto como uma linha reta: perdeu, sofreu, superou. Mas a clínica — essa que não se deixa enganar por narrativas fáceis — mostra outra coisa. O luto não é um estado único, é um percurso irregular. E, como sugere Allouch ao tensionar Freud, podemos lê-lo em três tempos que não são etapas rígidas, mas modos distintos de o sujeito se posicionar diante da perda: inibição, sintoma e angústia. Não como fases cronológicas, mas como formas de resposta ao real da morte — esse impossível de simbolizar completamente. A inibição aparece quando algo se paralisa. O sujeito não consegue agir, decidir, desejar. É como se a vida tivesse perdido seu eixo — e, de certo modo, perdeu mesmo. Aqui, o luto não se mostra em excesso, mas em falta: falta de movimento, falta de investimento, falta de direção. Já o sintoma entra em cena quando algo da perda encontra uma via de expressão indireta. O sujeito passa a “falar” sem saber: repetições, atos falhos, escolhas estranhas, pequenas fixações… O luto se infiltra, se disfarça, insiste. Ele não foi elaborado — ele está sendo encenado. Mas é na angústia que algo mais radical se revela. A angústia não engana. Ela não representa — ela apresenta. Ali, o sujeito se vê diante de um vazio que não pode ser preenchido, de uma falta que não pode ser negada. É o momento em que o luto toca o real: não há substituição possível, não há sentido que dê conta. E talvez seja justamente aí que algo pode se transformar. Não porque a dor desaparece, mas porque o sujeito pode, enfim, se implicar nela — fazer algo com essa perda, em vez de apenas suportá-la ou evitá-la. Pensar o luto nesses três tempos não é organizar o sofrimento, mas reconhecer sua complexidade. Nem todo silêncio é elaboração. Nem toda dor é visível. Nem toda repetição é acaso. Às vezes, o que parece “seguir em frente” é apenas inibição. Às vezes, o que parece “superado” retorna como sintoma. E às vezes, o que assusta — a angústia — é justamente o ponto de virada.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud