Cultura, literatura e sociedade

Psicanálise é bobagem? Cientificismo sem freio ameaça o debate racional

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:29

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Psicanálise é bobagem? Cientificismo sem freio ameaça o debate racional* Em tempos de polarização e desinformação, a ciência tornou-se não apenas instrumento de progresso, mas também campo de batalha ideológica. Na mira dos “divulgadores científicos” autoproclamados guardiões da verdade, a psicanálise tem sido rotulada de pseudociência — e isso diz mais sobre os acusadores do que sobre o objeto atacado. A ofensiva recente liderada por figuras como Pasternak e Orsi tenta colocar a psicanálise no mesmo balaio que curas energéticas, astrologia e deuses astronautas. O argumento? Falta de evidência. Mas o problema é mais profundo: o que se entende por evidência? Christian Dunker e Gilson Iannini argumentam que o cientificismo – essa confiança cega na ciência como única forma legítima de saber – se tornou um veneno no lugar do remédio. E lembram: “ciência pouca é bobagem", mas ciência demais, sem crítica, é delírio de razão. Essa obsessão por enquadrar todos os saberes nos moldes da medicina baseada em evidências ignora o fundamental: nem todos os objetos exigem o mesmo método. O inconsciente não cabe numa planilha de Excel. --- Quando o método vira fetiche A tentativa de aplicar testes duplo-cego à clínica analítica gera distorções que lembram a velha piada: "se só tenho um martelo, tudo vira prego". Sob a lógica da “eficiência comprovada”, perde-se justamente o que a psicanálise tem de mais valioso: o sujeito. Dunker ironiza: “É como se a fobia de Hans aos cavalos fosse ‘bobagem’ por não obedecer às métricas da neurociência.” Mas foi ouvindo essa bobagem que Freud fundou um campo inteiro de saber, ainda hoje responsável por tratar sintomas que resistem à objetividade médica. Ao equiparar prática clínica com administração de antibióticos, os cruzados da evidência desprezam o que o próprio campo da psicoterapia vem admitindo: relações terapêuticas — empatia, escuta, vínculo — são mais decisivas que protocolos. --- A farsa do tribunal da razão Mais que debate epistemológico, o ataque à psicanálise revela uma cruzada moral. Ao tachar analistas de charlatães, os divulgadores científicos escorregam da crítica de método para o ataque pessoal — um truque retórico velho, mas eficaz. O livro responde com elegância: não há uma ciência, mas ciências. E o que vale como evidência em uma pode ser irrelevante em outra. A psicanálise não precisa ser ciência no molde da física para ter valor — assim como poesia não precisa de método estatístico para dizer verdades. Na prática, o que está em jogo é o controle sobre o que pode ou não ser considerado saber legítimo. Em tempos de guerra cultural, nem o inconsciente está a salvo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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