Clínica e técnica psicanalítica

Obsessivo demais para desejar?

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:51

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Obsessivo demais para desejar?* A neurose obsessiva desafia lógica, tempo e desejo — e continua a perturbar clínicos, analistas e sujeitos que pensam demais e sentem de menos. Há muitos motivos para se desconfiar do “eu penso, logo existo” quando se escuta um neurótico obsessivo. Entre um pensamento e outro, ele sofre, hesita, protela, complica — e não se dá conta de que, ao tentar calar o desejo, o aprisiona numa cadeia de palavras mágicas, rituais e estratégias defensivas. É verdade que o obsessivo pensa muito. Mas isso não significa que saiba o que quer. Pelo contrário: ele pensa para não desejar, duvida para não decidir, e age (ou deixa de agir) no momento exato em que desejar seria insuportável. > “A dúvida, que Descartes elevou à dignidade de um método filosófico, não é apenas um sintoma da neurose obsessiva. É também uma defesa contra a angústia.” (Ribeiro) Essa operação mental não é um problema moral — é estrutural. O obsessivo crê no pai, crê na ordem do pensamento, crê na lógica. E por isso mesmo, teme tudo o que escapa à razão: o corpo, o desejo, a mulher, o tempo. --- Essa desconexão entre pensamento e desejo seria um indício de que é simplesmente impossível prever o sujeito obsessivo — dado o excesso de lógica, a rigidez da linguagem e a culpa que sabota qualquer ato. --- A obsessão é, antes de tudo, um tipo de defesa. O sintoma não é um erro: é um truque engenhoso, uma tentativa de escapar da morte, da castração, da sexualidade e da culpa. O obsessivo sofre — mas sofre por estratégia. É por isso que tantos deles “eram felizes e não sabiam”. Amam quando perdem. Desejam quando não podem. E se sabotam no exato instante em que a vida começa a fazer sentido. O problema não é a falta de amor, mas o excesso de vigilância do supereu. Como se diz no texto de Ribeiro, a obsessão é uma “religião particular”. Um sistema fechado de crenças, hábitos e repetições, onde o sujeito reza com palavras cifradas para se proteger do que mais teme: o prazer. --- A questão que permanece é: como tratar quem deseja não desejar? Como conduzir uma análise se toda aproximação com o desejo é boicotada pela reação terapêutica negativa? Para Ribeiro, a aposta da psicanálise está em escutar o sujeito para além do eu. <Mensagem editada>

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.