Clínica e técnica psicanalítica

Pensar com Bion

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:40

2 min de leitura
*🧐📄Textão de hoje* *Pensar com Bion* Wilfred Bion talvez seja o psicanalista que mais insistiu na necessidade de transformar a experiência em pensamento. Para ele, a leitura, a clínica e a vida só ganham sentido quando se tornam experiências emocionais, capazes de modificar quem as vive. Ele nos lembra que “o livro terá fracassado se não se tornar um objeto de estudo para o leitor, e se a própria leitura não for uma experiência emocional”. Isso vale também para a análise: não se trata apenas de acumular teorias, mas de deixar-se afetar. Bion advertia os analistas: é preciso trabalhar “sem memória, sem desejo e sem compreensão”. Ou seja, não se agarrar a teorias prontas, nem impor expectativas, mas abrir espaço para que o pensamento novo surja na sessão. É como ele escreve: “Descarte-se de sua memória, descarte o tempo futuro de seu desejo; seja aquilo que você sabia ou aquilo que você quer, para deixar espaço para uma nova ideia.” A verdade, em sua visão, não é uma conquista tranquila, mas uma experiência que pode ser até dolorosa: “O medo de conhecer a verdade pode ser tão poderoso que as doses de verdade são letais”. Por isso, muitas vezes, o sujeito prefere mentiras íntimas, narrativas improvisadas que encobrem a dor. Ainda assim, a aposta de Bion é clara: só haverá futuro para a psicanálise se ela permanecer como um contato real com a vida. “Se a psicanálise quer sobreviver e se desenvolver, terá que ser um contato com a realidade com que lidamos.” O convite de hoje, então, é deixar-se afetar. Permitir-se não saber, para que o novo se apresente. Porque, como Bion nos ensina, memórias e desejos podem cegar — mas a abertura para a experiência pode transformar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Wilfred Bion