O sujeito moderno tropeça no próprio tempo
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*O sujeito moderno tropeça no próprio tempo*
Há muitas razões para se sentir angustiado ao observar a condição do sujeito na contemporaneidade. Em tempos em que se espera que a escuta clínica ofereça respostas rápidas para dores que atravessam o corpo e o discurso, o que se vê é um sujeito fragilizado, deslocado e cada vez mais silencioso. Como se houvesse algo fora do lugar — ou melhor, dentro, mas sem palavra.
É nesse contexto que se desenha a análise proposta pelo livro O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na atualidade. Um retrato da subjetividade contemporânea atravessado por exclusões, medicalizações excessivas e uma clínica que se vê convocada a mais do que interpretar: a escutar o que, muitas vezes, não encontra linguagem.
“A noção de sujeito está implicada em todas as formas de escuta clínica, mesmo quando não é tematizada explicitamente”, afirma o texto logo de início — uma lembrança de que nenhuma clínica é neutra e nenhuma prática escapa da história.
Um dos primeiros pontos destacados pela obra é o espaço: não apenas o espaço físico, mas o modo como os sujeitos habitam o mundo. A vida urbana não é cenário: é coautora do mal-estar. E o que antes era território de encontro, hoje se traduz em mobilidade precária, em vínculos frágeis. “A produção do espaço urbano, os modos de habitar e a mobilidade estão relacionados à constituição dos sujeitos.”
Se o lugar vacila, o corpo grita. A dor, talvez o sintoma mais cru da clínica atual, aparece como metáfora do que escapa à simbolização. Um corpo que fala o que não se consegue dizer. “O corpo que dói aparece como metáfora e expressão do que não pode ser simbolizado.” A dor, então, não é mais apenas queixa: é linguagem interrompida.
O problema se agrava quando essa dor é empacotada, rotulada e vendida como transtorno. O capítulo sobre a patologização da vida cotidiana denuncia esse movimento. Sofrimentos cotidianos, naturais à experiência humana, são capturados por categorias diagnósticas e tratados à base de pílulas e manuais. “A medicalização do sofrimento transforma experiências existenciais em doenças a serem curadas por psicofármacos.”
No campo da juventude, o que emerge é o silêncio do social transformado em barulho violento. A ausência de escuta e de representação simbólica gera atos que explodem onde antes deveria haver diálogo. “A violência pode ser entendida como uma forma de comunicação de uma dor sem palavras.” A clínica, portanto, precisa aprender a ouvir o que não foi dito.
O último capítulo desloca a psicologia para além do divã e dentro das instituições. A atuação nos serviços públicos, diante da exclusão e da desigualdade, exige outro tipo de escuta: uma escuta que não enquadra, mas acolhe. “O desafio ético da psicologia é não capturar o sujeito em categorias fixas, mas escutá-lo em sua singularidade.”
No fim, a pergunta permanece: como fazer clínica quando o próprio sujeito está em risco de desaparecer sob diagnósticos, sob ruídos urbanos, sob dores sem nome? O livro responde com clareza: “A clínica não pode se furtar de escutar o social que atravessa cada sujeito.”
O mal-estar do nosso tempo não se resolve com protocolos. Mas talvez se sustente melhor quando há espaço — simbólico, político e ético — para que a palavra do sujeito encontre lugar.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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