Clínica e técnica psicanalítica

O que se procura quando se abre a geladeira?

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:55

2 min de leitura
🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *O que se procura quando se abre a geladeira?* A porta da geladeira se abre. O olhar percorre as prateleiras, mas escolher parece difícil. Às vezes, aquilo que se procura ainda não encontrou palavras. No capítulo “Psicanálise e compulsão alimentar”, de Da geladeira ao divã, Mônica Vianna investiga os sentidos psíquicos que podem atravessar nossa relação com a comida. Pela perspectiva apresentada, comer pode carregar experiências de cuidado, presença, perda e desamparo. Desde o início da vida, alimentação e vínculo se encontram. O alimento chega acompanhado de alguém: uma voz, um cheiro, um modo de segurar, um tempo de espera. Essas experiências participam da construção do nosso mundo interno. Mais tarde, a comida pode adquirir a força de uma promessa de reencontro com a segurança. Um relato de Marya Hornbacher, citado no capítulo, aproxima a fome da vontade de estar perto dos pais. O pão preparado com a mãe e o sorvete comprado pelo pai guardavam também a possibilidade de companhia. O sabor vinha acompanhado de uma relação. Na compulsão, essa busca pode assumir uma urgência dolorosa. Comer oferece alívio por alguns instantes, enquanto aquilo que angustia permanece difícil de reconhecer. Depois, a pessoa pode dirigir contra si uma violência feita de vergonha, acusações e exigências impossíveis. A leitura nos convida a pensar quanto sofrimento se acrescenta quando alguém é reduzido à ideia de falta de controle. O julgamento ocupa justamente o lugar em que uma história precisaria ser escutada. Vianna apresenta uma compreensão psicanalítica entre diferentes fatores envolvidos na compulsão alimentar. Isso exige preservar a singularidade: cada pessoa estabelece relações próprias entre corpo, alimento, afetos e acontecimentos de sua vida. Para a clínica, fica uma pergunta: que experiência essa pessoa tenta tornar suportável quando comer se torna urgente? Talvez a escuta possa ajudar a construir um intervalo. Um espaço em que a angústia encontre companhia, os afetos ganhem nome e outras formas de cuidado se tornem possíveis. A porta da geladeira pode se fechar. A história de quem a abriu precisa encontrar espaço para continuar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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