O que realmente tentamos alimentar quando comemos?
🧐📄 *Textão do dia*
*O que realmente tentamos alimentar quando comemos?*
A compulsão alimentar costuma ser descrita como uma perda de controle diante da comida. Mas, para a psicanálise, talvez essa definição diga muito pouco. A pergunta mais fecunda não é *"por que a pessoa come tanto?"*, mas **"que vazio ela tenta alimentar?"**.
Vivemos em uma época que oferece respostas imediatas para quase todo sofrimento. Há um objeto para cada angústia, uma solução para cada desconforto. Entretanto, quando o alimento deixa de nutrir o corpo e passa a tentar silenciar a dor psíquica, percebemos que o problema nunca esteve apenas na comida.
O artigo de Monica Vianna e Joana de Vilhena Novaes propõe uma leitura profundamente psicanalítica desse fenômeno ao aproximar **Melanie Klein** e **André Green**. A hipótese das autoras é elegante: a compulsão alimentar nasce menos da fome e mais da dificuldade em suportar a ausência, a frustração e o vazio constitutivo da existência.
Klein nos ensina que a constituição de um **objeto interno bom** permite ao sujeito tolerar perdas e esperar pela satisfação. Quando predominam falhas precoces nesse processo, instala-se aquilo que as autoras relacionam à **introjeção canibal**: em vez de um objeto capaz de oferecer segurança, internaliza-se um objeto fragmentado, insuficiente, incapaz de apaziguar a angústia. A comida passa, então, a ocupar o lugar desse objeto que nunca pôde ser verdadeiramente encontrado.
André Green amplia essa compreensão ao afirmar que o **objeto absolutamente necessário** precisa, paradoxalmente, desaparecer. Somente quando o objeto se deixa apagar é que se constitui o chamado **vazio estruturante**, condição indispensável para o nascimento do desejo. Como escreve Green: **"o trabalho do negativo"** é precisamente aquilo que permite que a ausência deixe de ser apenas perda para transformar-se em espaço psíquico. Quando esse trabalho fracassa, o vazio deixa de estruturar e passa a ser vivido como ameaça constante.
Talvez seja por isso que tantas compulsões nunca encontrem satisfação. Não é o alimento que está sendo buscado, mas um objeto primordial que nenhuma comida pode representar plenamente.
Na clínica, isso nos convida a deslocar o foco do comportamento para a constituição da subjetividade. O sintoma alimentar deixa de ser apenas um excesso para revelar-se como uma tentativa desesperada de sustentar um psiquismo fragilizado. Afinal, como nos lembra a tradição psicanalítica, **o que retorna repetidamente não é a fome do corpo, mas aquilo que ainda não encontrou representação na vida psíquica.**
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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