Amor, vínculos, desejo e luto

O paradoxo do amor correspondido

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 13:53

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🧐📄 *Textão do Dia* *O paradoxo do amor correspondido* Há algo de profundamente desconcertante no amor correspondido. Costumamos imaginar que o amor seria finalmente o lugar da segurança, da confirmação e do equilíbrio. Mas talvez ele funcione justamente porque não elimina o enigma. Amar alguém e perceber-se amado por essa mesma pessoa não resolve a falta; ao contrário, a recoloca sob uma nova forma: a surpresa de ser escolhido por alguém que também nos parece bom demais para ser verdade. O amor não se sustenta porque dois sujeitos se completam, mas porque ambos consentem em habitar esse desencontro sem transformá-lo imediatamente em cobrança, cálculo ou dívida. A questão é que ninguém chega ao amor do zero. Cada um leva consigo sua herança afetiva, a marca dos primeiros investimentos, das faltas, das ambivalências, das formas como foi visto, desejado, negligenciado ou idealizado. Por isso, tantas vezes, o encontro amoroso é atravessado por compensações inconscientes: há quem busque no outro um desagravo antigo, há quem exija do mundo o mesmo lugar privilegiado que teve em casa, e há quem transforme o amor num tribunal permanente contra si mesmo. O parceiro então deixa de ser outro e vira medida, prova, espelho ou reparação. Talvez por isso o amor fracasse quando passa a obedecer à lógica dos pré-requisitos. Quando o vínculo íntimo é reduzido a checklist, desempenho, atributos e garantias, o outro desaparece como sujeito e sobra apenas um ideal de adequação. O amor não nasce do preenchimento perfeito de critérios, mas da experiência improvável de ser acolhido justamente ali onde não se é inteiro, pronto ou impecável. Em vez de confirmar uma imagem ideal de nós mesmos, o amor correspondido pode abrir espaço para algo mais raro: suportar que alguém nos ame sem que saibamos explicar totalmente por quê. No fundo, o paradoxo do amor correspondido talvez seja este: ele não se funda na certeza de que merecemos o outro, mas na estranha e partilhada sensação de que recebemos mais do que damos. Quando essa assimetria é vivida pelos dois como gratidão e assombro, há amor. Quando vira contabilidade, ressentimento e dívida, o laço adoece. Amar, então, não é encontrar quem nos deva alguma coisa, mas encontrar alguém diante de quem ainda somos capazes de estranhar, com alguma ternura, o fato de termos sido escolhidos.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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