Clínica e técnica psicanalítica

O adoecimento somático em Ferenczi, Groddeck e Winnicott: síntese e fundamentação de uma nova matriz teórica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:15

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🧐📄 Textão de hoje O adoecimento somático em Ferenczi, Groddeck e Winnicott: síntese e fundamentação de uma nova matriz teórica A matriz teórica predominante na psicanálise sobre o adoecimento somático é a da Escola de Psicossomática de Paris, fundada por Pierre Marty. Essa abordagem se fundamenta na hipótese de que a doença orgânica resulta de uma insuficiência da capacidade representacional do psiquismo, compreendida como falha do “funcionamento mental” (Marty, 1993). O psiquismo seria um aparelho regulador das excitações pulsionais, conforme o modelo mecânico freudiano (Freud, 1996a/1915). O adoecimento físico surgiria, nesse contexto, como falha de elaboração representacional das tensões corporais, cuja ausência resultaria na manifestação direta no corpo (Aisenstein, 2010, p. 53). O presente estudo propõe que as contribuições teóricas de Ferenczi, Groddeck e Winnicott configuram uma matriz alternativa de compreensão do adoecimento somático. A análise teórico-conceitual das obras desses três autores revela três fundamentos convergentes: --- 1. Concepção monista do indivíduo Os autores analisados rejeitam a dualidade corpo-psique. Em vez disso, consideram o indivíduo como uma realidade integral, cujas manifestações somáticas e psíquicas são concomitantes. A proposta de Groddeck é o conceito de "Isso" como designação da totalidade dos processos vivos de um ser humano, desde a concepção. “O Isso engloba consciente e inconsciente, o Ego e os impulsos, corpo e alma, o fisiológico e o psicológico; perante o Isso não há uma fronteira demarcando o físico e o psíquico” (Groddeck, 1992b, p. 118). A noção de “psicossoma”, empregada por Winnicott, também remete a essa unidade indissociável. Essa concepção implica a recusa da separação entre doenças “orgânicas” e “psíquicas”. Todas são manifestações do Isso e, portanto, psicossomáticas. “No fundo, sou da opinião de que o ponto de intervenção do tratamento psíquico e orgânico é o mesmo, é o Isso do ser humano” (Groddeck, 1992e, p. 169). A abordagem clínica deve considerar essa unidade complexa, não apenas por motivos teóricos, mas como base para a prática terapêutica. --- 2. A psique como movimento de elaboração imaginativa Contrariamente ao modelo representacional, os três autores concebem a psique como uma atividade criativa contínua, responsável por dar sentido à experiência corporal. “O psiquismo deve ser pensado como uma atividade, um processo dinâmico” (Fulgêncio, 2003, p. 145). A personalização do corpo ocorre por meio de símbolos, fantasias, sonhos e gestos expressivos. A simbolização não é entendida como tradução de uma realidade bruta, mas como expressão direta de uma realidade afetiva. Groddeck observa que mesmo gestos e posturas são manifestações simbólicas do Isso: “o inconsciente obriga-o a simbolizar” (Groddeck, 1992a, p. 94). Ferenczi exemplifica esse princípio ao descrever pacientes com anomalias da fonação, nos quais diferentes vozes exprimem estados subjetivos distintos: “quando o efeito de suas palavras preocupava-o mais do que o seu conteúdo, punha-se a falar com sua voz feminina” (Ferenczi, 2011b/1915, p. 201). --- 3. O adoecimento como fenômeno relacional A doença é entendida como expressão de uma relação, e não como produto de um déficit intrapsíquico. A ausência de produções simbólicas não é causa, mas consequência do adoecimento. A etiologia está nas experiências ambientais, especialmente nas relações precoces. Ferenczi enfatiza o impacto dos traumas ambientais na infância. “Crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem facilmente e de bom grado” (Ferenczi, 2011c/1929, p. 58). A resposta ao trauma é integral: “os sintomas psíquicos e físicos são expressões da relação do indivíduo com um ambiente que não o recebeu bem quando bebê” (p. 9). O tratamento psicanalítico, para Ferenczi, deve adaptar-se a essa realidade relacional, inclusive flexibilizando o setting: “deve-se deixar, durante algum tempo, o paciente agir como criança” (Ferenczi, 2011c/1929, p. 59). Winnicott, por sua vez, compreende o adoecimento como produto da falha do ambiente em sustentar a tendência inata à integração. Em um caso clínico, interpreta uma doença orgânica como expressão de um desejo de morrer reativado pela separação do analista: “a doença física vinha como uma localização em um órgão do corpo desse desejo tremendo de morrer” (Winnicott, 1983/1963, p. 226). Groddeck reforça a dimensão comunicativa do adoecimento. Quando o Isso não encontra vias normais de expressão, recorre à doença: “ele recorre ao meio ambiente, ali escolhendo algum elemento que lhe sirva para ficar doente” (Groddeck, 1992f, p. 103). A doença é uma mensagem psicossomática. --- Conclusão A análise das concepções de Ferenczi, Groddeck e Winnicott demonstra a existência de uma nova matriz teórica sobre o adoecimento somático. Essa matriz: Considera o indivíduo como uma totalidade psicossomática; Concebe a psique como atividade criativa que personaliza o corpo; Entende o adoecimento como expressão relacional e significativa. Ao invés de localizar a origem da doença em falhas do psiquismo, essa abordagem compreende o sintoma como expressão de uma realidade afetiva singular, marcada pela história e pelo ambiente. Tal matriz está alinhada a modelos contemporâneos de cuidado integral em saúde. --- Referência Santos, L. N., & Peixoto Junior, C. A. P. (2019). O Adoecimento Somático em Ferenczi, Groddeck e Winnicott: uma Nova Matriz Teórica. Psicologia: Ciência e Profissão,

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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