Narcisismo, desejo e o mal-estar contemporâneo
🧐📄 *TEXTÃO DE HOJE*
*Narcisismo, desejo e o mal-estar contemporâneo*
O narcisismo, desde Freud, não é sinônimo de vaidade ou egoísmo banal. Ele diz respeito à forma como a libido se organiza entre o eu e o mundo. Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud mostra que todo sujeito passa por um narcisismo primário, necessário à constituição do eu, e que o sofrimento começa quando essa circulação libidinal se empobrece: ou tudo retorna ao eu, ou tudo é lançado aos objetos na esperança de completar uma falta impossível de preencher .
Na cultura contemporânea, esse movimento ganha uma feição específica. A chamada “cultura do narcisismo” descreve um sujeito que já não aposta no futuro nem na construção de projetos duradouros. Vive-se sob a lógica do presente contínuo, da autopreservação e do consumo como tentativa de anestesiar a angústia. O desejo deixa de ser sustentado pela falta e passa a ser capturado pela necessidade imediata, transformando o consumo em promessa de alívio psíquico que nunca se cumpre .
Esse cenário produz um paradoxo: quanto mais o sujeito é convocado a “se amar”, “se realizar” e “ser suficiente”, mais emerge o vazio interior, a dependência do olhar do outro e o medo de vínculos reais. O narcisismo contemporâneo não é excesso de amor-próprio, mas uma defesa frágil contra a sensação de desamparo, contra a agressividade e contra a impossibilidade de sustentar perdas e frustrações .
A clínica nos mostra ainda que há uma diferença fundamental entre um narcisismo de vida, que permite investir no mundo, criar laços e simbolizar a falta, e um narcisismo de morte, marcado pelo fechamento, pela repetição estéril e pela recusa do outro como alteridade. Quando o eu se torna o único destino da libido, o resultado não é força, mas empobrecimento psíquico, isolamento e sofrimento silencioso .
Talvez o trabalho analítico hoje consista justamente em recolocar o desejo em circulação: não como promessa de completude, mas como abertura para o laço, para o tempo e para aquilo que escapa ao controle do eu. Em uma cultura que transforma o sujeito em mercadoria de si mesmo, sustentar a falta pode ser um gesto ético — e profundamente clínico.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo