Escutar o que ainda não encontrou palavras
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Há sofrimentos que não chegam até nós em forma de narrativa organizada. Não vêm como sonho contado, lembrança elaborada ou conflito claramente simbolizado. Eles aparecem no corpo, no silêncio, no excesso, no vazio, na explosão repentina, na repetição sem sentido aparente. A psicanálise contemporânea, especialmente a partir de autores como André Green, nos convida justamente a olhar para esses territórios onde a palavra falha, onde o sujeito já não consegue transformar a experiência em representação.
Durante muito tempo, a clínica psicanalítica esteve fortemente centrada no modelo das neuroses clássicas, em que o sintoma era compreendido como retorno do recalcado, algo que poderia ser interpretado através da associação livre, dos sonhos e da transferência. Mas o sofrimento contemporâneo parece frequentemente escapar dessa lógica. Hoje encontramos sujeitos marcados por sentimentos de vazio, impulsividade, somatizações, crises identitárias, compulsões, atuações e relações profundamente instáveis. Não se trata apenas de um conflito entre desejo e proibição, mas de falhas mais primitivas na constituição do próprio eu.
Green afirma que, nesses casos, o ato ocupa o lugar que antes pertencia ao sonho. Ou seja, aquilo que não pôde ser simbolizado retorna não como palavra, mas como descarga. O sujeito age aquilo que não consegue pensar. E talvez uma das tragédias silenciosas do nosso tempo seja justamente essa dificuldade crescente de transformar sofrimento em linguagem. Vivemos numa época acelerada, performática e excessivamente estimulada, mas profundamente empobrecida em espaços de elaboração psíquica.
Por isso, a escuta analítica contemporânea exige mais do que interpretação. Exige presença. Exige que o analista suporte o vazio, a confusão, a fragmentação e até mesmo os ataques ao próprio enquadre. Exige um trabalho delicado de sustentação psíquica, onde, muitas vezes, o analista precisa conservar dentro de si a capacidade de simbolizar aquilo que o paciente ainda não consegue sonhar, pensar ou nomear.
Talvez seja justamente aí que a psicanálise continue viva: não quando repete fórmulas prontas ou transforma sua teoria em dogma, mas quando aceita permanecer nos limites, nos confins, nas zonas ainda obscuras da experiência humana. Porque escutar alguém, no sentido mais profundo, não é apenas compreender o que ele diz. É também permanecer ao lado daquilo que nele ainda não encontrou palavras.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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