Infância, trauma e constituição do sujeito

Como agir com um adolescente difícil, segundo J.-D. Nasio

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:01

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🧐📄 *Textão do dia* Como agir com um adolescente difícil, segundo J.-D. Nasio O livro Como agir com um adolescente difícil apresenta uma abordagem clínica e teórica da adolescência com foco nas manifestações do conflito psíquico, das resistências e da posição dos adultos diante do jovem em sofrimento. Organizado em três capítulos principais, o texto articula fundamentos psicanalíticos a orientações práticas, estruturando a análise em torno de conceitos-chave como pulsão, angústia, ato, gozo e função do Outro. Logo no início, o autor estabelece a adolescência como “uma travessia marcada por angústia, violência e desejo de transformação” (p. 10). Não se trata de uma fase linear, mas de uma experiência que convoca rupturas e construções subjetivas. O adolescente difícil não é um patológico em si, mas alguém que se defende intensamente contra a angústia de crescer. O primeiro capítulo explora a “posição subjetiva do adolescente”, assinalando que sua rebeldia manifesta o desejo inconsciente de se separar do Outro parental. “É preciso que o adolescente destrua simbolicamente seus pais para poder nascer como sujeito” (p. 14). Esse processo, no entanto, pode se cristalizar em condutas desafiadoras, acting out e sintomas que demandam escuta e não repressão. No segundo capítulo, o texto se concentra na “posição do adulto frente ao adolescente difícil”. O autor insiste na importância de o adulto não ocupar o lugar do Ideal do Eu, mas sim sustentar o lugar de escuta, sem ceder à tentação de controlar ou moralizar. “Um adulto deve saber dizer não, sem se deixar capturar pela provocação do adolescente” (p. 28). A função ética do adulto consiste em suportar a transferência e manter-se como referência estável. A terceira parte propõe formas de intervenção clínica e educativa com base na escuta do sintoma e no manejo da transferência. O sintoma do adolescente é entendido como “uma tentativa de encontrar uma solução singular para o conflito entre o desejo e a lei” (p. 38). O trabalho do clínico é ajudar o jovem a simbolizar sua angústia e a encontrar palavras para o que se apresenta no corpo ou na ação. O livro conclui que a dificuldade do adolescente revela, muitas vezes, o impasse da própria família e da cultura em lidar com a diferença e o desejo. “O adolescente difícil é aquele que denuncia, com seu corpo e seus atos, o mal-estar de seu entorno” (p. 47). O adulto, por sua vez, deve se colocar como suporte de subjetivação, e não como corretor da conduta. Referência: NASIO, Juan-David. Como agir com um adolescente difícil. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

J.-D. Nasio