Infância, trauma e constituição do sujeito

Brincar não é bobagem — é onde o sujeito nasce

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 15:44

2 min de leitura
🧐📄 TEXTÃO DO DIA Brincar não é bobagem — é onde o sujeito nasce Talvez isso surpreenda, mas para a psicanálise brincar não é coisa pequena. Não é passatempo, nem algo “infantil” no sentido banal. Brincar é, para Winnicott, o momento em que a pessoa sente: “sou eu que estou aqui”. É ali que nasce o sentimento de existir de verdade. Quando alguém brinca, não está apenas repetindo o que o mundo manda, nem fugindo da realidade. Está criando um espaço próprio, onde pode experimentar, errar, inventar, sem precisar se defender o tempo todo. É nesse espaço que o sujeito entra em contato com algo muito precioso: o self verdadeiro, aquilo que não é feito para agradar, corresponder ou sobreviver. O problema é que muitas pessoas não puderam brincar. Foram exigidas cedo demais: tinham que ser maduras, responsáveis, fortes, corretas. Aprenderam a funcionar, mas não a existir. Cresceram eficientes, mas vazias. Por fora tudo anda; por dentro, algo não vive. Surgem então o tédio, a sensação de falsidade, a depressão silenciosa, o sentimento de não ser real. Na clínica, isso aparece o tempo todo. E aqui vem um ponto fundamental: análise não é só interpretar palavras. Para Winnicott, a análise só funciona quando o encontro permite algo parecido com o brincar. Um espaço onde o sujeito não precise se defender o tempo todo, onde possa falar, silenciar, testar, imaginar — sem ser invadido nem julgado. Quando não há espaço para brincar, o que aparece é repetição mecânica, acting-out, fala vazia. Quando o brincar reaparece, algo se reorganiza por dentro. A pessoa começa a sentir que a vida é dela, e não apenas algo que precisa ser suportado. Viver criativamente não é ser artista. É sentir que a vida vale a pena porque é vivida a partir de dentro. Brincar é isso: o lugar onde o sujeito não está nem engolido pelo mundo, nem perdido dentro de si. Às vezes, o trabalho analítico começa de forma muito simples: restituir ao sujeito o direito de brincar — e, com isso, o direito de existir.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Winnicott