Infância, trauma e constituição do sujeito

As Problemáticas da Infância na Contemporaneidade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:23

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🧐📄 *Textão de hoje* *As Problemáticas da Infância na Contemporaneidade* Vivemos um tempo em que a infância se tornou um campo de tensão entre o simbólico e o tecnológico, entre o brincar e o desempenho, entre o desejo e a performance. Como lembra Jefferson Krug, “a psicanálise de crianças é um lugar que tenciona constantemente a psicanálise como um todo” — afinal, é na criança que encontramos as marcas mais visíveis das mutações do sujeito contemporâneo Os psicanalistas Marie-Christine Laznik e Jefferson Silva Krug parte da constituição psíquica infantil para pensar o sujeito do nosso tempo: uma criança atravessada por telas, diagnósticos precoces e discursos sobre desempenho. O brincar, antes um espaço de simbolização e elaboração da ausência, torna-se muitas vezes uma atividade instrumentalizada — mediada por aplicativos, algoritmos e recompensas instantâneas. Quando o brincar perde sua dimensão simbólica, o sujeito perde também o espaço de criação, de fantasia e de elaboração do desejo. Freud nos ensina que o brincar é a cena em que a criança reinscreve a perda. Winnicott reforça: é no espaço potencial entre o eu e o outro que o gesto lúdico se torna linguagem. Já na contemporaneidade, vemos crianças que brincam, mas não jogam com o simbólico — interagem, mas não se encontram; expressam, mas não significam. A clínica infantil, portanto, é convocada a recuperar o valor do jogo como ato de fala do inconsciente, e não como simples exercício de adaptação comportamental. Marie-Christine Laznik aprofunda essa discussão ao examinar a prevenção do autismo e a importância da prosódia afetiva entre mãe e bebê. A “prosódia do manhês”, esse canto primitivo que carrega prazer e surpresa, é um ato inaugural de linguagem — onde o ritmo, a voz e o olhar abrem o campo do desejo Quando esse circuito se rompe, o sujeito pode não se constituir no campo do Outro. Assim, pensar a infância hoje é pensar também o mal-estar contemporâneo, que Joel Birman descreve como a transformação do sujeito desejante em sujeito da dor — um corpo saturado, hiperconectado, mas esvaziado de temporalidade Em tempos de medicalização, hiperdiagnóstico e consumo de performances emocionais, a tarefa do analista é resgatar o espaço de escuta e de tempo — restituir ao brincar sua função de criar realidade psíquica. Como diz Krug: “Não temos que pensar quem é o problema, temos que pensar qual é o problema.” Que infância estamos ajudando a construir — aquela do sujeito que joga com o desejo ou do sujeito que performa para o olhar do outro?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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