As lições das psicoses: o trabalho do sujeito diante do impossível
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*As lições das psicoses: o trabalho do sujeito diante do impossível*
Na psicanálise, há um tipo de trabalho que escapa às leis da produtividade: o trabalho de fazer existir o sujeito, mesmo onde o sentido falha. Colette Soler, em As lições das psicoses, nos convida a escutar o que há de mais radical na estrutura psicótica: o esforço do sujeito em reconstruir um mundo simbólico quando o Outro o abandona.
Lacan afirmava que “um psicanalista não deve retroceder diante das psicoses”. Soler retoma essa lição para mostrar que o psicótico, longe de ser apenas um “caso clínico”, é um criador de linguagem. Em vez de repressão, ele enfrenta o furo no simbólico, onde a palavra não amarra o gozo — e é justamente ali que inventa novas formas de dizer e existir.
A autora revela que, na ausência do Nome-do-Pai, a linguagem se torna corpo: invade, fere, fala sozinha. O delírio, então, não é desrazão, mas tentativa de costura — uma suplência simbólica diante da falha estrutural. Joyce é o exemplo maior: fez de sua escrita um sinthoma, um trabalho que substituiu o pai e sustentou seu ser.
A lição de Soler é clara: o psicótico trabalha o real. Não o recalca, como o neurótico, mas o enfrenta diretamente, produzindo um saber novo sobre o laço e sobre o limite. É um trabalho árduo, sem garantias, mas que ensina à psicanálise que o sujeito pode se reinventar mesmo sem o amparo do Outro.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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