Cultura, literatura e sociedade

“A DROGA DO TOXICÔMANO: UMA PARCERIA CÍNICA NA ERA DA CIÊNCIA” (Jésus Santiago)

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:05

3 min de leitura
🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* “A DROGA DO TOXICÔMANO: UMA PARCERIA CÍNICA NA ERA DA CIÊNCIA” (Jésus Santiago) Jésus Santiago nos convida a repensar o fenômeno da toxicomania para além da visão moral, médica ou policial. Seu ponto de partida é radicalmente psicanalítico: não existe o “toxicômano” como categoria clínica freudiana. O que há é um sujeito em busca de uma forma de lidar com o gozo — esse excesso impossível de simbolizar — que a ciência, ao tentar quantificar tudo, pretende expulsar do real. > “Para a ciência, não há gozo no real.” — Jésus Santiago Santiago mostra que a ciência transforma a droga em tóxico, reduzindo-a à substância química e ignorando o campo do desejo e da linguagem. Ao contrário, a psicanálise entende o ato de drogar-se como um uso metódico do tóxico, uma tentativa de tratar o gozo quando o sintoma simbólico não basta. A droga, assim, funciona como um substituto do sintoma, uma invenção subjetiva para suportar o insuportável. Inspirado por Lacan, o autor aproxima a droga do objeto “gadget”, produto típico da civilização científica: algo feito para provocar um gozo imediato, autístico, sem mediação do Outro. O toxicômano, nesse sentido, representa o sujeito contemporâneo — solitário diante do gozo — que tenta se bastar a si mesmo, prescindindo do laço simbólico e da alteridade. > “A toxicomania é o grande paradigma das novas formas de sintoma, pois ela tenta prescindir do Outro.” — Jésus Santiago Na leitura de Santiago, a droga é também um símbolo do nosso tempo: uma resposta cínica ao mal-estar da civilização. O “cínico” aqui é o sujeito que recusa todos os semblantes e ideais do Outro, buscando uma autossuficiência ilusória — “um gozo no corpo do Um”. Essa ética cínica contemporânea, diz o autor, já não visa à virtude (como nos antigos), mas à sobrevivência: é a felicidade possível em um mundo sem transcendência. Por isso, o toxicômano é o emblema do sujeito moderno — aquele que, perdido entre o gozo e a falta, entre o corpo e o significante, tenta encontrar na substância uma forma de calar a dor de existir. A droga, mais do que um veneno, é um phármakon: remédio e veneno ao mesmo tempo, cura e perdição. > “A droga é um artefato de discurso — uma técnica substitutiva que auxilia o sujeito frente aos percalços do desejo.” — Jésus Santiago Jésus Santiago faz da toxicomania um espelho da cultura contemporânea — uma clínica do gozo no tempo da ciência. A droga revela o fracasso do simbólico, a solidão do sujeito e a tentativa desesperada de tocar o real sem o Outro. Em que medida todos nós, na era dos “gadgets”, das telas e dos likes, não nos tornamos também um pouco toxicômanos — buscando pequenas doses de gozo que aliviam, mas nunca simbolizam, o vazio que habita o sujeito?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.