Teoria e conceitos

Sustentar o Enigma do Sujeito: Lacan com Vanier

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 09:31

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🧐📄 *Textão de Hoje* *Sustentar o Enigma do Sujeito: Lacan com Vanier* O pensamento de Lacan, revisitado por Vanier, nos convida a percorrer os meandros de uma clínica que não se contenta com respostas rápidas ou soluções prontas. Ao contrário, trata-se de uma prática que exige paciência, rigor e, sobretudo, a coragem de sustentar o enigma do sujeito. Em tempos de hiperexposição, onde a linguagem parece se reduzir a mensagens instantâneas e algoritmos de recomendação, Lacan nos lembra que é justamente no tropeço da fala, no lapso, no equívoco, que o sujeito se deixa entrever. Vanier enfatiza como Lacan desloca a psicanálise para um campo em que o inconsciente não é apenas o recalcado freudiano, mas algo que se estrutura como linguagem — e, por isso, fala através de nós, muitas vezes sem que o saibamos. A clínica, então, não é a busca de uma “cura” entendida como adaptação ao mundo, mas o exercício de sustentar o desejo, ainda que ele seja marcado pela falta. Vanier sublinha que, para Lacan, a verdade não é algo que se possui, mas algo que se diz meio às avessas, sempre atravessada pelo inconsciente. No fundo, este é o convite lacaniano: deixar-se afetar pelo que escapa, pelo que não se encaixa. Numa época em que tudo tende a ser traduzido em métricas, performances e protocolos, a psicanálise insiste em preservar um espaço para o sujeito — esse que não se mede, que não se calcula, mas que se revela no furo da linguagem. Talvez o mais radical seja compreender que o sintoma, longe de ser apenas sofrimento, pode ser também a via de acesso ao singular de cada um. Como lembra Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, mas é na forma singular de cada sujeito lidar com esse enigma que se abre a possibilidade de uma existência menos capturada pelo imperativo de gozo da contemporaneidade. O Texto de hoje nos lembra que sustentar o enigma do sujeito é, também, resistir à tentação de reduzir a vida a manuais de instrução.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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