Quando matar é lei e aliviar o sofrimento é crime: Betty Milan e a escuta psicanalítica da morte
🧐📄 *Textão de hoje*
*Quando matar é lei e aliviar o sofrimento é crime: Betty Milan e a escuta psicanalítica da morte*
No artigo “A história não para de se repetir”, *Betty Milan* toca num ponto que atravessa a política, a ética e a clínica psicanalítica: o paradoxo brutal de uma civilização que **legitima a morte na guerra**, mas **criminaliza o pedido de morrer de quem sofre**.
Como psicanalista, Milan não escreve apenas como intelectual pública. Ela escreve a partir de uma escuta. Uma escuta que reconhece que há sofrimentos que não se resolvem com heroísmo, nem com prolongamento artificial da vida, nem com discursos morais abstratos. Há dores que pedem **palavra**, **acolhimento** — e, em alguns casos, **um limite**.
A guerra, diz ela, foi normalizada. Jovens são convocados a matar ou morrer em nome de fronteiras, enquanto corpos mutilados seguem vivos sem escolha. Aqui, a leitura psicanalítica é direta: a guerra dá vazão ao que **Sigmund Freud** chamou de **pulsão de morte**. Mas, como Milan lembra, Freud também insistia que o humano se diferencia por poder **frear** essa pulsão. O problema é que escolhemos freá-la onde convém ao poder — e liberá-la onde a barbárie é institucionalizada.
O escândalo ético apontado por Betty Milan é simples e devastador:
👉 **Matar em massa é legal.**
👉 **Ajudar alguém a morrer com dignidade é crime.**
A psicanálise entra aqui não como juíza, mas como **campo de escuta do desejo**. Milan afirma algo fundamental: *para saber o momento certo, basta escutar quem precisa morrer*. Essa frase desloca toda a discussão. Não se trata de técnica médica apenas, nem de legislação fria, mas da **singularidade do sujeito**, de sua história, de seu sofrimento e de seu dizer.
Na clínica, sabemos: nem todo apego à vida é pulsão de vida. Às vezes, é apenas **negação do real**, sadismo institucional ou recusa em ouvir o outro até o fim. A vida, como lembra Milan, **não é um bem em si**. O bem é a **qualidade da vida** — e a dignidade da morte.
Quando a psicanálise é chamada para esse debate, ela não oferece respostas universais. Ela oferece algo mais raro: **responsabilidade ética diante do sofrimento humano**. Escutar não é empurrar para a morte, mas também não é obrigar alguém a viver em agonia para satisfazer ideais morais, religiosos ou jurídicos.
Talvez a história se repita porque seguimos recusando essa escuta.
Seguimos autorizando a morte coletiva e proibindo a morte singular.
Seguimos chamando de crime o que é cuidado — e de dever o que é barbárie.
A pergunta que Betty Milan nos deixa não é jurídica. É psicanalítica, ética e política:
👉 **Quem decide quando viver deixa de ser vida?**
👉 **E por que temos tanto medo de escutar essa resposta?**
Enquanto não escutarmos, a história — como ela diz — continuará se repetindo.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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