Clínica e técnica psicanalítica

Quando a Intimidade Vira Técnica: O que Khan nos Ensina Sobre a Perversão

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:52

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🧐📄 *Textão de hoje* Quando a Intimidade Vira Técnica: O que Khan nos Ensina Sobre a Perversão Há encontros humanos que parecem íntimos, mas não são. Há aproximações que não nascem do desejo de compartilhamento, mas de uma urgência psíquica: controlar o outro para não despencar dentro de si. É exatamente aí que Massud Khan ilumina algo essencial — e desconcertante — sobre a perversão. Khan nos mostra que, na perversão, a intimidade não é vivida: ela é produzida como uma técnica. Uma manobra psíquica. Um uso do outro. O perverso não busca o encontro, mas a manipulação onipotente da relação. Ele intima o outro a cumprir um papel, como se estivesse conduzindo uma peça que precisa ser repetida compulsivamente para manter de pé uma crença frágil, quase delirante. Por que isso acontece? Porque lá atrás houve um fracasso na integração do ego, uma falha primária na relação de apoio com a mãe. Faltou o espaço transicional, aquele “entre” onde o bebê pode experimentar, brincar, criar sentido. Faltou a sustentação para existir como sujeito. Sem essa base, o perverso cresce sem acesso à experiência emocional profunda; sobra-lhe apenas o contato sensorial como tentativa desesperada de se aproximar da vida. Mas esse contato não basta. Ele toca, mas não sente. Atinge o corpo, mas não alcança o outro. Busca o gozo, mas não faz laço. E é por isso que Khan cunha a expressão “orgasmo de ego” — aquela experiência que não é apenas corporal, mas psíquica; aquela irrupção de encontro em que o sujeito se sente pertencente, integrado, afetado. O perverso não chega lá. O orgasmo de ego lhe escapa porque exige entrega, vulnerabilidade e confiança — justamente os pontos onde houve falha no início da vida. Assim, ele se torna refém da repetição compulsiva, preso à montagem perversa que tenta tapar, a cada ato, o buraco de uma experiência que nunca aconteceu. No fundo, como nos lembra Ferraz, a perversão é uma defesa contra a psicose. Uma construção engenhosa — frágil, mas vital — para não desabar na angústia, na fragmentação e na perda do sentido. Uma ilusão ativa, sustentada pelo ato, para evitar que a realidade da falta apareça e o sujeito se despedaçe. Talvez a pergunta que reste para nós, clínicos, seja esta: O que acontece quando alguém vive a vida inteira intimando o outro, mas nunca podendo se entregar a ele? O que acontece com um sujeito que cria cenas, mas não consegue entrar dentro delas? Khan nos responde sem dizer: acontece solidão. Uma solidão ruidosa, exibida, erotizada, atuada — mas, no fundo, desesperada por aquilo que deveria ter vindo no início: um olhar que sustenta, um gesto que acolhe, um espaço onde a intimidade possa ser vivida e não encenada.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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