Pulsão de morte, supereu e trauma
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*Pulsão de morte, supereu e trauma*
A clínica nos confronta com algo inquietante: há sujeitos que repetem o sofrimento como se fossem convocados por ele. Não se trata apenas de sintoma neurótico, mas de uma força que insiste — na reação terapêutica negativa, no masoquismo, na compulsão de destino, na autossabotagem. Foi diante desses fenômenos que Freud introduziu a noção de pulsão de morte.
Mas o que exatamente significa isso?
No artigo “Pulsão de morte como efeito de supereu”, Ana Maria Rudge nos lembra que a formulação freudiana nasce de um impasse clínico: a repetição que leva à dor não podia mais ser explicada apenas pelo princípio do prazer
. Contudo, a hipótese biológica de uma tendência ao inorgânico não oferecia instrumentos suficientes para a prática clínica. Era especulativa.
O salto decisivo ocorre quando Freud desenvolve a teoria do supereu. A partir daí, a força destrutiva deixa de ser pensada como pura tendência biológica e passa a ser compreendida como historicamente construída. A pulsão de morte torna-se visível através do sentimento inconsciente de culpa e da necessidade de punição — manifestações da tensão entre eu e supereu
Em outras palavras:
não é o corpo biológico que empurra o sujeito para o sofrimento —
é o supereu que organiza essa repetição.
A repetição mortífera é efeito de identificações arcaicas, das primeiras palavras ouvidas, dos mandatos parentais que se inscrevem como exigências superegóicas. A destrutividade passa a ser pensada no domínio histórico, não no biológico
E é aqui que Ferenczi radicaliza a questão.
No artigo “Trauma e pulsão de morte em Ferenczi”, Herzog e Pacheco-Ferreira mostram que Ferenczi desloca ainda mais o eixo da discussão. Para ele, as manifestações atribuídas à pulsão de morte não são expressão de uma tendência constitucional universal, mas resultado das primeiras relações do eu com seus objetos primários
Ferenczi não rejeita frontalmente o conceito freudiano, mas o reinscreve no campo relacional. A destrutividade não é destino biológico; ela emerge quando o ambiente falha.
Quando o bebê é mal acolhido, quando há ausência de tato, quando ocorre desmentido traumático, a criança não consegue introjetar a experiência. O que não pôde ser simbolizado torna-se corpo estranho psíquico. E esse resto clivado repete-se de forma mortífera
Aqui a clínica ganha outra tonalidade.
Não estamos diante de uma pulsão que visa ao nada, mas de uma falha na mediação do outro. A compulsão à repetição deixa de ser vista apenas como força econômica interna e passa a ser compreendida como consequência de uma ruptura intersubjetiva
Ferenczi antecipa algo fundamental:
quando o processo de introjeção falha, instala-se a clivagem.
E o que não pôde ser simbolizado retorna como repetição sem memória
Se em Freud a pulsão de morte encontra mediação no supereu, em Ferenczi ela encontra origem no trauma desestruturante.
O ponto comum entre ambos é decisivo:
a destrutividade só se torna clinicamente operável quando pensada na história do sujeito.
Não se trata de aceitar ou rejeitar a pulsão de morte como conceito. Trata-se de entender que ela só ganha consistência clínica quando articulada:
ao supereu,
às identificações primárias,
ao trauma,
à falha ambiental,
à dimensão histórica do laço com o Outro.
Sem isso, ficamos presos a uma explicação abstrata.
Com isso, ganhamos instrumento clínico.
Porque se a pulsão de morte fosse apenas biológica, nada poderíamos fazer.
Mas se ela é efeito do supereu e do trauma, ela pode ser deslocada na transferência.
E é exatamente aí que a psicanálise acontece.
A repetição não é destino.
É discurso congelado.
E onde há discurso, há possibilidade de trabalho. <Mensagem editada>
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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