Clínica e técnica psicanalítica

Padrões de Repetição sob a ótica freudiana

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:39

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Padrões de Repetição sob a ótica freudiana* Há experiências em nossas vidas que parecem nunca se encerrar. Relações que terminam sempre do mesmo jeito, escolhas que nos levam a impasses conhecidos, fracassos que retornam como se obedecessem a uma lei silenciosa. Freud chamou esse fenômeno de compulsão à repetição. Desde os primeiros escritos, ele percebeu que a memória não se limita a guardar fatos: o inconsciente insiste em reproduzir. Em vez de simplesmente recordar, o sujeito revive — seja num lapso, num sintoma ou numa cena repetida à exaustão. É como se a vida psíquica buscasse encenar, de novo e de novo, aquilo que não pôde ser elaborado. No célebre ensaio Recordar, repetir e elaborar (1914), Freud nota que, no tratamento analítico, o paciente não apenas fala do passado: ele atua o passado no presente, sobretudo na relação transferencial com o analista. A repetição se revela, assim, como resistência. O que foi recalcado não aparece em lembranças claras, mas em modos de se relacionar, escolhas e afetos reincidentes. Alguns anos depois, em Além do princípio do prazer (1920), a questão se radicaliza. Freud observa que não repetimos apenas na direção do prazer: repetimos também o que nos causa dor. Crianças que transformam a ausência em jogo, veteranos de guerra que sonham com o trauma, adultos que retornam às mesmas situações destrutivas. Surge, então, a ideia de que a repetição toca algo mais profundo que a busca de satisfação: uma tendência pulsional que resiste ao princípio do prazer, um empuxo ligado à pulsão de morte. A repetição, portanto, não é mero acaso, mas expressão do inconsciente. Ela denuncia que não somos senhores de nossas escolhas; que há em nós uma força que insiste, que retorna, que se atualiza. A psicanálise não promete livrar-nos de toda repetição — mas pode transformá-la: da atuação cega à possibilidade de recordar e elaborar. E talvez seja nesse ponto que a liberdade se anuncia: não quando conseguimos “evitar” repetir, mas quando passamos a reconhecer o fio que nos prende e, ao dar-lhe palavra, abrimos espaço para algo diferente.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud