Amor, vínculos, desejo e luto

O luto não é só dor: é aprendizagem

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:10

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🧐📄 *Textão do Dia* *O luto não é só dor: é aprendizagem* Há algo no luto que frequentemente nos engana. Pensamos que estamos apenas sofrendo, quando, na verdade, estamos sendo atravessados por um processo muito mais complexo: o de reaprender o mundo. Quando alguém que amamos morre, não perdemos apenas a presença dessa pessoa — perdemos também o lugar que ela ocupava em nossa rotina, em nosso corpo, em nossas expectativas mais automáticas. O sujeito sabe que o outro morreu, mas o seu funcionamento psíquico ainda não aprendeu isso. É aí que o luto se instala: nesse intervalo entre saber e conseguir sustentar o que se sabe. Na clínica, isso aparece de forma muito clara. O enlutado relata que “sabe que a pessoa não está mais aqui”, mas continua procurando, esperando, escutando. E não se trata de negação, tampouco de fragilidade psíquica. Trata-se de um desencontro estrutural entre a realidade simbólica e os registros mais automáticos da experiência. O psiquismo, habituado à presença do outro, insiste em mantê-lo como referência. Como diria Freud, há uma ligação libidinal que não se desfaz por decreto. E como nos ensinaria Bowlby, há um sistema de apego que continua ativo, buscando proximidade, mesmo quando essa proximidade já não é mais possível no plano concreto. É por isso que o luto não pode ser apressado. Não há atalho para esse processo, porque ele não é apenas elaboração consciente — é uma reconfiguração profunda do modo como o sujeito se orienta no mundo. Cada ausência percebida, cada rotina atravessada pela falta, cada tentativa frustrada de encontrar o outro são, paradoxalmente, aquilo que permite ao psiquismo aprender. Não é o tempo que cura, mas aquilo que o sujeito vive no tempo. A repetição da ausência vai, pouco a pouco, inscrevendo uma nova realidade possível. Talvez o ponto mais importante — e também o mais difícil — seja este: o luto não termina no esquecimento, mas na transformação do vínculo. O outro não desaparece; ele muda de lugar. Sai do campo da presença e passa a habitar a memória, a linguagem, o modo como o sujeito continua vivendo. Não se trata de “seguir em frente” deixando para trás, mas de seguir com isso. E isso exige tempo, experiência e, sobretudo, autorização para sofrer. Porque, no fundo, o luto é isso: o trabalho silencioso de um sujeito tentando aprender a viver em um mundo onde alguém essencial já não está — e, ainda assim, continua.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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