Teoria e conceitos

O Eu não é senhor em sua própria casa

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:47

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🧐📄 *Textão do Dia* *O Eu não é senhor em sua própria casa* Há ideias que mudam teorias. Outras mudam a forma como o ser humano se compreende. A descoberta freudiana do inconsciente pertence à segunda categoria. Durante séculos, a tradição filosófica acreditou que a razão ocupava o centro da experiência humana. Conhecer a si mesmo significava voltar-se para a consciência, observar os próprios pensamentos e, por meio da reflexão, encontrar a verdade sobre quem se é. O sujeito era concebido como alguém capaz de se compreender, governar suas escolhas e orientar sua vida a partir da racionalidade. Freud introduz uma inquietação profunda nesse projeto. Ele não afirma que a razão não existe. Tampouco que a consciência seja inútil. O que ele mostra é que existe algo em nós que pensa, deseja, lembra e age sem pedir autorização à consciência. Por isso sua célebre afirmação continua tão perturbadora: > "O eu não é senhor em sua própria casa." A frase não deve ser entendida como uma derrota do sujeito, mas como uma ampliação de sua complexidade. Aquilo que acreditamos controlar muitas vezes é atravessado por desejos contraditórios, lembranças esquecidas, fantasias, medos e marcas que continuam atuando silenciosamente. Talvez por isso algumas pessoas repitam relacionamentos que as fazem sofrer. Talvez por isso voltemos aos mesmos conflitos, mesmo quando juramos ter aprendido a lição. Talvez por isso certas palavras escapem em um lapso, certos sonhos insistam em retornar e certas emoções surjam sem explicação aparente. A psicanálise não oferece o conforto de uma resposta definitiva sobre quem somos. Ela nos convida a sustentar uma pergunta. Em vez da ilusão de transparência, propõe uma escuta. Em vez da certeza absoluta, oferece a possibilidade de uma aproximação gradual de nós mesmos. Joel Birman observa que Freud produziu uma verdadeira revolução filosófica ao mostrar que o sujeito não é uma unidade fechada e plenamente consciente. Somos feitos também daquilo que desconhecemos em nós. Talvez a maturidade não consista em controlar tudo. Talvez consista em reconhecer que existe uma parte de nós que permanece enigmática e, ainda assim, merece ser escutada.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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