Cultura, literatura e sociedade

Freud e a filosofia: aproximações e afastamentos

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:36

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🧐📄 *Textão de hoje* *Freud e a filosofia: aproximações e afastamentos* Bastam algumas passagens da obra de Sigmund Freud para perceber que sua relação com a filosofia foi marcada por uma tensão constante, ora de fascínio, ora de distanciamento. Essa ambiguidade, analisada por Jean Laplanche no capítulo XV de Sexual, revela um “duplo discurso” que atravessa a trajetória do criador da psicanálise. De um lado, Freud confessou no início de sua carreira: “Nutro em meu foro íntimo a esperança de alcançar pelo mesmo caminho meu primeiro objetivo: a filosofia”. Anos depois, em 1925, afirmou de forma categórica: “Evitei cuidadosamente aproximar-me da filosofia propriamente dita. Uma incapacidade constitucional facilitou-me muito essa abstenção”. Laplanche observa que, apesar dessa “inaptidão” declarada, Freud não se furtou a emitir opiniões sobre sistemas filosóficos e correntes de pensamento — fosse para criticar o marxismo, fosse para alertar contra o “niilismo intelectual” de certos círculos que, segundo ele, haviam se deixado embriagar pela relatividade da física moderna. A recusa de Freud a sistemas fechados O ponto central da análise de Laplanche é que Freud rejeitava qualquer “visão de mundo” unificada e definitiva, como explicitou em Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1933). Para ele, sistemas totais tendiam a atender mais ao narcisismo e à necessidade de conforto intelectual do que ao rigor crítico. A filosofia, vista como prática de uma elite restrita, parecia-lhe menos perigosa do que a religião, alvo frequente de suas objeções. Ainda assim, seu pensamento foi influenciado por questões epistemológicas caras à tradição filosófica, mesmo quando negava pertencer a ela. --- *Essa tensão entre fascínio e recusa revela que a psicanálise nasceu num diálogo permanente com a filosofia diálogo feito tanto de empréstimos conceituais quanto de recusas estratégicas.* --- Um “racionalismo ferido” Laplanche encerra o capítulo qualificando a postura freudiana como a de um “racionalismo ferido” racionalismo aberto à contingência, às falhas e ao inacabamento do saber. Essa abertura teria permitido à psicanálise se manter como campo em constante transformação, preservando seu caráter crítico e evitando ser absorvida por qualquer doutrina filosófica fechada. Ao mesmo tempo, essa atitude criou um espaço fértil para que a psicanálise pudesse dialogar com outros saberes, sem se submeter a eles. É nesse cruzamento instável — entre filosofia, ciência e clínica — que Laplanche enxerga uma das maiores forças do legado freudiano.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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