Cultura, literatura e sociedade

Eros, Liberdade e a Luta Contra a Civilização da Repressão

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 16:23

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🧐📄 *Textão de Hoje* *Eros, Liberdade e a Luta Contra a Civilização da Repressão* (baseado no documento Eros e Civilização – Herbert Marcuse) Herbert Marcuse nos oferece uma das leituras mais poderosas e provocadoras da tradição freudiana. Em Eros e Civilização, ele parte de Freud para subverter Freud. Parte da ideia de que toda civilização se funda sobre repressão, renúncia e trabalho forçado — mas não aceita que essa seja a única possibilidade de existência humana. Marcuse pergunta: e se a repressão que vivemos não for apenas necessária, mas histórica, construída, manipulada? E se pudermos imaginar uma sociedade onde Eros não precise ser sufocado para que a vida social exista? No texto, Marcuse revisita o conflito entre Eros (vida, prazer, criatividade) e Tanatos (destrutividade, aniquilação) para mostrar que nossa cultura opera uma repressão excedente — um excesso de controle que não serve à sobrevivência, mas ao poder. É o que ele chama de princípio de desempenho: não trabalhamos para viver; vivemos para produzir. Renunciamos ao corpo, ao tempo, ao ócio, ao sonho. Tornamo-nos engrenagens afetivas de uma máquina social que exige eficiência e descarta humanidade. Ele então lança uma tese revolucionária: a ideia de uma sociedade não-repressiva, onde o trabalho não seria castigo, onde o corpo não seria um inimigo, e onde o prazer não seria luxo, mas forma de existência. Eros, ao invés de ser comprimido, poderia organizar o viver — não como devassidão, mas como harmonia, como corpo integrado à criação, como ética do bem-estar coletivo. Ao reler Freud, Marcuse mostra que o mal-estar não é apenas destino; é escolha civilizatória. E, se é escolha, pode ser transformado. O que hoje chamamos de ansiedade, esgotamento, sensação de inutilidade ou fragmentação psíquica não é apenas sofrimento individual: é sintoma político. É efeito de uma sociedade que sequestrou o desejo para alimentar um sistema de produção infinita. O gesto de Marcuse é o de devolver ao sujeito a capacidade de imaginar futuro. Ele nos lembra que resistir à civilização repressiva começa com a recusa da naturalização do sofrimento. Começa quando você diz: “meu corpo não é máquina”, “meu tempo não é mercadoria”, “meu desejo não é fracasso”, “meu descanso não é culpa”. Esse é o início de toda política do Eros. Em tempos de hiperaceleração, burnout afetivo e dessimbolização social, Eros e Civilização aparece como uma convocação: ou reencontramos o desejo como potência de vida, ou a civilização continuará a produzir sujeitos mutilados, disciplinados e silenciosos. Marcuse nos convida a imaginar aquilo que é mais revolucionário hoje: um mundo onde o prazer não seja impeditivo da vida, mas fundamento dela. E talvez esse seja o verdadeiro ponto: a libertação não começa fora — começa na forma como habitamos nosso corpo, nosso tempo e nosso desejo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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