Cultura, literatura e sociedade

Entre o mito e o homem: Freud e a arte de perturbar o sono da humanidade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:06

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🧐📄 Textão de hoje *Entre o mito e o homem: Freud e a arte de perturbar o sono da humanidade* Ler a biografia de Freud, como a escrita por Peter Gay, é entrar em um território de paradoxos. O próprio Freud, em carta de 1885 à noiva, avisava: “destruí todas as minhas anotações dos últimos catorze anos... que os biógrafos penem e labutem”. Desde o início, ele desafiava quem ousasse contar sua história. E, de fato, sua vida foi palco de tensões constantes: entre a ousadia de se expor e o pudor de preservar seus segredos; entre o “conquistador por temperamento” que dizia ser e o burguês vienense preso ao ritmo da cidade que tanto amava e odiava. O que chama atenção é como sua biografia não pode ser lida como uma trajetória linear de feitos heróicos. Ao contrário, ela é atravessada por ambiguidades: o pai dócil que recolhe o gorro jogado no chão, a mãe jovem e bela que ocupa seus primeiros devaneios eróticos, a babá católica que o inicia em experiências de ternura e ausência. Freud não é apenas o “fundador da psicanálise”, mas também o menino de Freiberg, o jovem judeu em Viena cercado pelo antissemitismo, o cientista que convivia com dúvidas, perdas e recomeços. No fundo, essa oscilação entre grandeza e falha é o que o torna universal. Como lembra o próprio Freud, “quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredo. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros”.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund FreudPeter Gay