Clínica e técnica psicanalítica

Dependência, desenraizamento e reconstrução da identidade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:21

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🧐📄 *Textão do Dia* *Dependência, desenraizamento e reconstrução da identidade* No capítulo 5 de No Reino dos Fantasmas Famintos, Gabor Maté permite compreender a dependência não apenas como uso compulsivo de uma substância, mas como uma experiência de ruptura na continuidade do sujeito. O comportamento adictivo aparece associado à perda de pertencimento, ao enfraquecimento dos vínculos comunitários e à dificuldade de sustentar uma identidade que não esteja organizada em torno da droga. A ancestralidade e a espiritualidade ocupam um lugar central nessa reflexão. Os rituais transmitidos entre gerações oferecem mais do que uma prática cultural: fornecem pertencimento, memória e uma narrativa capaz de ligar o indivíduo ao passado. O sujeito deixa de existir apenas como alguém marcado pelo sofrimento presente e passa a reconhecer-se como parte de uma história que começou antes dele e poderá continuar depois. Essa continuidade simbólica funciona como uma forma de sustentação psíquica. Quando os vínculos com a família, a cultura e a comunidade são rompidos, a substância pode assumir artificialmente algumas dessas funções. Ela oferece alívio, sensação de proteção e uma identidade provisória. Contudo, aquilo que inicialmente reduz a dor também estreita progressivamente a vida, produzindo isolamento e enfraquecendo outras formas de relação. O capítulo também destaca a importância da poesia e da expressão artística. A criação transforma sensações dispersas em palavras, permitindo que o sofrimento deixe de ser apenas descarregado no corpo ou na compulsão. Nesse sentido, escrever pode representar uma tentativa de simbolização: aquilo que antes só podia ser vivido como desespero começa a adquirir forma, ritmo e significado. Clinicamente, essa perspectiva indica que tratar a dependência não significa apenas interromper o consumo. É necessário favorecer a reconstrução dos vínculos, da memória e do sentimento de pertencimento. A pergunta não deve ser somente “como retirar a droga?”, mas também: “o que poderá ocupar, de maneira viva e humana, o lugar que ela passou a ocupar?”. A recuperação exige mais do que abstinência. Exige que o sujeito possa reencontrar uma história, uma comunidade e uma linguagem capazes de sustentar sua existência para além da compulsão.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Gabor Maté