Clínica e técnica psicanalítica

Borderline semeia confusão na clínica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:05

3 min de leitura
📄🧐 *Textão de hoje* *Borderline semeia confusão na clínica* Há motivos suficientes para os analistas se sentirem desorientados diante do sofrimento psíquico contemporâneo. A estrutura borderline, descrita por Mauro Hegenberg, continua a desafiar as classificações clínicas — entre a neurose e a psicose — e a própria escuta terapêutica. A clínica de hoje não gira em torno apenas de sintomas clássicos, mas de angústias difusas, crises de identidade e vínculos instáveis. O borderline representa esse ponto de tensão: sofre sem ruptura com a realidade, mas com intensos colapsos subjetivos. A questão que inquieta muitos clínicos é se estamos diante de um novo tipo de sujeito — ou apenas de um novo nome para velhas dores. Se você ainda quiser ficar mais desconcertado, basta entrar em contato com o cotidiano clínico. A estrutura borderline escapa das categorias formais da psiquiatria, e ao mesmo tempo exige, como Hegenberg sugere, um reposicionamento do analista diante de um tipo de sofrimento marcado por clivagens, impulsividade e vazio existencial. > “A estrutura borderline apresenta uma fragilidade egóica que, ao mesmo tempo em que mantém contato com a realidade, se defende de angústias intensas com mecanismos primitivos, como a clivagem, a idealização e a desvalorização” (Hegenberg, p. 27). Esse impasse teórico e clínico reflete algo mais profundo: a tensão entre a escuta sensível da psicanálise e a lógica dos manuais diagnósticos, como o DSM. Os critérios técnicos, segundo o autor, “podem tornar-se um obstáculo à compreensão do sujeito na sua singularidade” (p. 47). O risco é transformar a clínica em checklist — e o sofrimento em categoria. > “O diagnóstico deve servir à clínica, e não o contrário” (Hegenberg, p. 49). O ponto central da análise de Hegenberg é a compreensão da borderline como uma estrutura, e não apenas como um transtorno. Trata-se de um modo de organização do psiquismo em que o sujeito permanece cronicamente ameaçado pela dissolução de seus limites, ao mesmo tempo em que apela ao outro para garantir sua própria existência. É nesse cenário que o analista entra: não como intérprete distante, mas como presença confiável. Essa desconexão entre a teoria clássica e a prática clínica contemporânea seria uma indicação de que é simplesmente impossível fazer previsões coerentes — dada a ausência de quadros nítidos e o colapso da distinção entre neurose e psicose. Em vez disso, o analista se depara com experiências que oscilam entre regressões severas e momentos de adaptação funcional. O borderline não segue roteiros: ele desafia todos. > “É o sofrimento da desorganização, mas sem a perda do contato com a realidade; é a dor da fragmentação, mas sem a ruptura do juízo” (Hegenberg, p. 23). No fundo, o livro propõe que repensemos as certezas da clínica e a função do analista. Não se trata apenas de interpretar, mas de sustentar. Não basta nomear, é preciso acompanhar. A análise com pacientes borderline exige um tipo de presença analítica que não desmorone frente à violência da transferência ou ao desamparo da repetição. > “A escuta do borderline não pode ser feita com as ferramentas clássicas apenas. Exige uma clínica ética, afetiva e sustentada na alteridade” (Hegenberg, p. 92). No fim, o que se apresenta é um convite — ou um alerta. A clínica contemporânea, atravessada por novas formas de sofrimento, nos obriga a pensar além das categorias. E talvez, como sugere Hegenberg, a psicanálise só sobreviva se for capaz de escutar o impensável.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Mauro Hegenberg