Clínica e técnica psicanalítica

A Dor Física segundo J.-D. Nasio

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 09:39

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🧐📄 *Textão de Hoje* *A Dor Física segundo J.-D. Nasio* Falar de dor é sempre falar de limite. A dor se localiza onde corpo e psique se encontram, onde o eu tenta defender sua integridade diante de um excesso que o atravessa. J.-D. Nasio, em A dor física: uma teoria psicanalítica da dor corporal, nos convida a repensar a dor não apenas como fenômeno neurofisiológico, mas como experiência profundamente psíquica. Ele propõe três momentos fundamentais da gênese da dor: 1. A dor da lesão – quando o corpo sofre um ferimento e o eu a percebe como uma ruptura periférica, uma ameaça à sua fronteira. 2. A dor da comoção – quando a energia do trauma atravessa a barreira do eu e deixa marcas no inconsciente, transformando-se em memória dolorosa que pode retornar de modos inesperados. 3. A dor de reagir – quando o eu, tentando se defender, superinveste a representação do ferimento, concentrando energia na imagem da lesão. Paradoxalmente, é esse esforço de resistência que intensifica o sofrimento. Para Nasio, não há diferença essencial entre dor física e dor psíquica. Ambas se constituem como reação a uma perda: de uma parte do corpo, de um objeto amado, de um vínculo. Em todos os casos, há uma superestimação de uma representação — seja da zona ferida, seja do ente perdido. A dor nasce desse excesso, desse apego apaixonado a um símbolo, que se torna isolado e carregado de energia. Mais ainda: toda dor atual carrega em si o eco de uma dor primitiva, talvez ligada ao nascimento, ao desmame, ou mesmo a uma memória arcaica da espécie. O inconsciente conserva essas marcas, e cada experiência dolorosa reativa esse passado, tornando a dor de hoje sempre singular, sempre minha. Nasio conclui que a dor é inseparável do amor. Só sofremos porque algo ou alguém a quem estávamos ligados nos é arrancado. O fundo da dor é sempre a perda de uma unidade. É por isso que, para além da neurofisiologia, compreender a dor exige escutá-la como afeto, memória e laço.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

J.-D. Nasio