A angústia não mente
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*A angústia não mente*
A angústia, para Jacques Lacan, ocupa um lugar radical na experiência do sujeito: ela é o único afeto que não engana. Diferente de outros sentimentos que podem ser mascarados, deslocados ou reinterpretados, a angústia surge como um sinal direto de algo que escapa à simbolização. Não se trata de um erro do psiquismo, nem de um simples excesso emocional — trata-se de um encontro. Um encontro com aquilo que não pode ser plenamente dito, com o real que irrompe quando as palavras falham.
Se em Sigmund Freud a angústia já aparecia como ligada à castração e ao desamparo, em Lacan ela ganha uma precisão ainda maior: a angústia emerge quando o sujeito se vê diante do objeto causa de seu desejo — o famoso objeto a. Não é a falta que angustia, mas, paradoxalmente, a sua proximidade excessiva. Quando algo ocupa o lugar que deveria permanecer vazio, quando o desejo perde seu intervalo, o sujeito se confronta com uma presença invasiva que o desestabiliza. A angústia, então, não é ausência — é excesso.
Na clínica, isso muda tudo. Não se trata de eliminar a angústia a qualquer custo, como frequentemente propõe o discurso contemporâneo, mas de escutá-la. A angústia aponta, indica, revela. Ela é bússola do sujeito. Quando alguém diz “não sei o que está acontecendo comigo, mas algo está errado”, é justamente aí que a psicanálise começa. A angústia abre uma via de acesso ao inconsciente, pois marca o ponto em que o sujeito se depara com o enigma de seu próprio desejo.
No entanto, vivemos em uma época que tenta silenciar esse afeto. Medicaliza-se, nomeia-se rapidamente, anestesia-se. Mas ao fazer isso, corre-se o risco de perder aquilo que a angústia tem de mais precioso: sua função de verdade. Lacan nos lembra que a angústia não deve ser apagada, mas atravessada. É nesse atravessamento que o sujeito pode, pouco a pouco, construir um saber sobre si — não um saber pronto, mas um saber que se produz no próprio caminho.
E talvez a pergunta que reste seja: você tem tentado calar sua angústia… ou escutá-la?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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